 cidade?
- A Mão do Rei - Arya respondeu.
Os dois homens riram, mas então o mais velho deu um soco
no outro, casualmente, como quem dá uma pancada num cão.
Arya viu o golpe antes que se formasse, e pulou para trás,
para fora do seu alcance, intocada.
- Não sou um rapaz - ela cuspiu as palavras. - Sou Arya Stark
de Winterfell, e se me puserem as mãos o senhor meu pai
ordenará ver suas cabeças na ponta de lanças. Se não
acreditam em mim, vão buscar Jory Cassei ou Vayon Poole
na Torre da Mão - pôs as mãos na cintura. - E agora, abrem o
portão, ou vão precisar de um cascudo nas orelhas para
ajudá-los a ouvir?
Seu pai estava sozinho na sala privada quando Harwin e
Gordo Tom marcharam com Arya até lá, com uma candeia de
azeite brilhando suavemente junto ao seu cotovelo. Estava
inclinado e o maior livro que Arya vira na vida, um volume
grosso com páginas amarelas e duras escritas numa letra
complicada, encadernadas em couro desbotado. Eddard Stark
fechou o livro para ouvir o relatório de Harwin. Tinha o rosto
severo quando mandou os homens embora com
agradecimentos.
- Você sabe que coloquei metade da minha guarda à sua
procura? - disse Eddard Stark miando ficaram sozinhos. -
Septá Mordane está fora de si de tanto medo. Está no septo
orando pelo seu regresso sã e salva. Arya, você sabe que não
deve nunca sair dos portões do castelo sem minha licença.
- Eu não saí dos portões - ela disse. - Bem, não tive intenção
de sair. Estava lá embaixo nas masmorras, só que elas se
transformaram, assim, num túnel. Estava tudo às escuras e
eu não tinha um archote ou uma vela para iluminar, e por
isso tive de continuar. Não podia voltar por onde tinha vindo
por causa dos monstros. Pai, eles estavam falando de matá-lo!
Os monstros, não, os dois homens. Eles não me viram, porque
estava imóvel como uma pedra e silenciosa como uma
sombra, mas eu os ouvi. Disseram que o senhor tem um livro
e um bastardo, e que se uma Mão podia morrer, por que não
uma segunda? O livro é esse? Aposto que o bastardo é Jon.
- Jon? Arya, do que está falando? Quem foi que disse isso?
- Eles disseram. Era um gordo com anéis e uma barba
amarela bifurcada, e outro com cota de malha e um capacete
de aço. E o gordo disse que tinham de fazer que demorasse
mais, mas o outro respondeu que não podiam continuar
fazendo malabarismos, e o lobo e o leão iam atacar-se um ao
outro, e que era uma farsa - tentou se lembrar do resto. Não
tinha compreendido bem tudo o que ouvira, e agora tudo se
misturava em sua cabeça. - O gordo disse que a princesa
estava esperando bebê. O do capacete de aço, que tinha o
archote, disse que tinham de se apressar. Acho que ele era um
feiticeiro.
- Um feiticeiro - disse Ned, sem sorrir. - Tinha uma longa
barba branca e um chapéu alto e pontiagudo salpicado de
estrelas?
- Não! Não foi como nas histórias da Velha Ama. Ele não
parecia um feiticeiro, mas o gordo disse que ele era.
- Vou preveni-la, Arya, que se está tecendo este fio de ar...
- Não, eu já lhe disse, foi nas masmorras, perto do lugar com a
parede secreta. Eu estava caçando gatos e, bem... - torceu o
nariz. Se admitisse ter derrubado Príncipe Tommen, seu pai
ficaria realmente zangado com ela. - ... bem, entrei assim por
uma janela. Foi onde encontrei os monstros.
- Monstros e feiticeiros - o pai disse. - Parece que você teve
uma bela aventura. Esses homens que disse ter ouvido,
falaram de malabarismos e pantomimas?
- Sim - Arya admitiu - só que...
- Arya, eles eram pantomimeiros - seu pai a repreendeu. -
Deve haver por esses dias uma dúzia de trupes em Porto
Real, vindas para ganhar algumas moedas com o público do
torneio. Não tenho certeza do que esses dois faziam no
castelo, mas talvez o rei tenha pedido um espetáculo.
- Não - ela balançou a cabeça obstinadamente. - Eles não
eram...
- Seja como for, não devia andar seguindo pessoas e espiá-las.
E tampouco me agrada a idéia de minha filha andar se
enfiando por janelas desconhecidas atrás de gatos vadios.
Olhe para você, querida. Seus braços estão cobertos de
arranhões. Isto já se prolongou o suficiente. Diga a Syrio
Forel que quero conversar com ele...
Seu pai foi interrompido por uma batida súbita e curta na
porta.
- Senhor Eddard, meus perdões - chamou Desmond, abrindo
uma fresta da porta -, mas está aqui um irmão negro
suplicando uma audiência. Diz que o assunto é urgente.
Pensei que talvez quisesse saber.
- Minha porta está sempre aberta para a Patrulha da Noite -
ele respondeu.
Desmond introduziu o homem na sala. Era corcunda e feio,
com uma barba malcuidada e roupas sujas, mas Eddard
Stark o recebeu de forma agradável e perguntou seu nome.
- Yoren, a serviço de vossa senhoria. Minhas desculpas pela
hora - fez uma reverência para Arya. - E este deve ser o seu
filho. Ele se parece com o senhor.
- Sou uma menina - Arya disse, exasperada. Se aquele velho
vinha da Muralha, devia ter passado por Winterfell. -
Conhece meus irmãos? - perguntou em tom excitado. - Robb e
Bran estão em Winterfell, e Jon está na Muralha. Jon Snow.
Ele tamb